29.1.09

mãos distantes.

o que vejo está além
do que o meu tato vê,
mesmo que o que sinto
seja igual por todo o corpo.

e o que há em mim,
se não é essência,
é resto.

um resto puro,
uma dose certa.

sem pudor.

resto do que vivi
sem ver.

e permaneço com as mãos
sob a derme da realidade:
tateando o mundo,
no escuro, procurando
quem eu posso ser.

22.1.09

meteorologia poética.

Olhos incertos divagam no horizonte.
Esperam, anciosamente, a volta.
um anúncio de volta (que seja).

Uma forma de entender que estiveram
sozinhos, mas não estarão mais.

Olhos marejados, infelizes, fiéis.

Olhos nublados de quem esperou todas
as estações passarem,
contou todos os ciclos da lua,
mas, não, nunca alcançou o porto.

Porto seguro, firme, gracioso.

Mas agora é verão!
Faz um calor lascado lá fora.
E há o desejo que os raios
de sol esquetem a alma.

Aqueles olhos observam a
manhã calma e bonita através
do véu ondulante da cortina.

Esperam alcançar paz,
esperam acabar com o desejo:
saciar a fome do corpo amado.

Mas chove.
Chove torrencialmente
dentro e para fora dos olhos.

Chove uma tempestade alucinante
de alguém que esperou regresso
numa manhã quente e amarelada,
mas só encontrou a torpe
realidade da solidão.

Emana sobre esses olhos partidos,
por favor, sol, emana!

E faça-os ver que por detrás das
nuvens opacas e feias do cotidiano
adormece calmamente um mar
translúcido de esperança.

Só assim esses olhos verão
o que sempre escolheram esquecer:
há verão para cada inverno.