24.6.10

um canto rouco.

Pai, agora que meu cálice transborda,
que a senda do vale da morte é funda
e densa como um abismo cortado com
Seu dedo na pedra feroz de um vulcão,
estenda a mão?

o vinho é amargo;
o passo é vacilante;
o frio é intenso;
a noite é murmurante.

Pai, Você que me olha do alto
e como formiga preta me vê,
Você que carrega meu coração
como diamante tirado da lama,
chegue mais próximo.

já não peço um abraço,
o afago diminui a culpa.
caí. e tornarei a cair enquanto
em passos vacilantes contornar
esse desfiladeiro.

caí porque meu coração é fraco,
como uma doença que me deixa
pálido num quarto escuro de hospital.

hoje ouço o eco da vida caminhando,
sei que estou muito longe da luz,
mas vejo um feixe, uma claridade.
por favor, cubra-a com Sua mão
de construtor, de oleiro que tirou do pó
misturado com lágrimas de amor
o sopro sublime do ser vivente.

Pai, peço pela mão,
um toque que esquente meu corpo,
que quebrante esse ego.

não me carregue, toque-me.
porque caí sozinho
e preciso me reerguer olhando em Seus olhos,
admitindo ser formiga preta,
enfrentando Sua compaixão até sentir vergonha
de suplicar sem fé.

17.6.10

bagagem.

um trem-de-ferro é uma coisa linda,
tem um quê de humano,
de apitar cansado como um velho
depois da guerra.

se fechar os olhos e escutar,
então parece a morte chegando,
com seu passo branco.

por que a morte é branca,
brancura de névoa no horizonte,
como um passageiro inocente:
uma bagagem de mão
e uma roupa no corpo.

e quando apita é por que pede
os trilhos limpos e desarmados.
pede que abram passagem.

e o trem-de-ferro que parece
homem, que parece morte,
que parece guerreiro depois
de limpar o sangue das mãos,
corta a madrugada com
ritmo de ferro pulsante,
de besta ferida, repugnante.

e da noite, parece a dama,
a anti-dama rasgando poesias
no cobertor turvo de estrelas,
refletido nos trilhos molhados
de orvalho frio.

16.6.10

uma prece acanonizável.

um café cheio de mágoa,
amargo e frio, sobre
a mesa de metal jaz.

o rapaz conta o dinheiro,
pega as notas miúdas
pra pagar o almoço
- um monte delas estampa
no fundo branco da conta
uma natureza.

vem um vento que
sopra-se manso e leva
ao céu araras.
o céu azul turquesa.
lindo, límpido, lindo.

no café frio
a lembrança das nuvens
se faz (tão ocre quanto).
(tão)

o garçom, que bate
na mulher em noite ímpar,
simpático, recebe o dinheiro,
agradece a caixinha magra
inocente - calado,
baterá na mulher no fim do mês
por falta de muita sorte.

mas o rapaz guarda
a carteira na bolsa.
e as araras não voltam
pra cantar de noite.

as araras são livres
como livre é a vontade
de estar frio, amargo,
sobre a mesa de metal,
no centro da cidade quente,
esquecido das nuvens
e do tempo, jazido.

um café, uma mágoa.
um canto de ave no poente.

14.6.10

est pluvium.

silencioso mar,
seu sussurro leva e traz
ausências em mim.


refresco e cantiga,
riacho mais que profundo,
infância querida.


gaivota no céu,
onda quebrada nos pés,
amor de papel.


pétala no mar,
indo aonde o vento vai,
traz meu coração?


a sombra da árvore
dentro do pingo de água
parece bonsai.


poeta na praia:
à pequena luz da lua
tantos versos náufragos.


o céu estrelado,
dentro da poça de chuva,
parece nublado.


nesse mar incerto
os marujos sempre são
sentimentos seus.


só a chuva mansa
faz do mar em rebeldia
canto e poesia.


no riacho manso,
a pedra branca parece
fagulha de sol.