1.1.10

um dia atípico.

entrou um gato no meu quintal.

ele olhou, eu espirrei.
gostei dele.
(gostei de seus segredos
... azuis)

gostei do mar incerto dentro
de suas pérolas.

e ele me olhava inseguro.
e eu me deixando tragar
pelo infinito que trazia
tão quieto e frágil.

veio com a alma aberta,
na mansidão pequena
de filhote abandonado,

se recostar em mim.

veio brincar no meu pé.

e o pé se transformou
na mãe que perdera
e a mãe se transformou
num sonho eterno e
bailaram os dois
(pé e gato) ao infinito.

e eu olhava seus olhos
cada vez mais desvendados.
cada vez mais sinceros e
desacreditados que havia
amor longe da pelagem branca.
a língua lambendo o nariz,
o nariz resplandecendo ao sol,
os bigodes fingindo um sorriso
que preenchia nosso silêncio.

puis-lhe a mão. correu. espirrei.

miou. miou com medo.
a mão o separava da mãe.

a mão do homem,
que não sabe deixar os filhos se enovelarem
para sempre no colo quente das mães.

a mão o levaria embora de novo.
o poria numa caixa de sapatos
(... como eu fiz)

e o deixaria no mundo!
com outros gatos órfãos,
procurando abrigo nas folhas,
nas ruas, no concreto.
juntos e sempre sozinhos.


e o mundo seria seu enigma.
e o mundo seria sua guarda.
e o mundo seria sua mãe.

e os pés do mundo
(sempre descalços e firmes)
iriam ser o seu carinho.
e as mãos do mundo
(enormes e devastadoras),
o seu homem.


e a liberdade, uma
mistura sem doses certas
entre cheiro de ar puro,
saudade de apego,
e a sempre bela e insóbria
vontade de correr
a próxima légua...

sem o peso do carinho,
do apego, do desatino
do mundo, do homem.

com o coração puro
de quem procura onde
se enovelar de novo
apenas.

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