17.5.08

epitáfio.

sob as pedras da
calçada, entre a
terra e o cimento,

jaz uma poesia
que foi esquecida
no calor dos dias
e dos seus abraços.

16.5.08

naipes - paus.

outro dia,
construi um barco
para afundar no
mar das palavras.

barco sem vela.
somente casco,
timão e mastro,
onde eu coloco
a minha bandeira
que, por ironia,
tem a sua imagem.

15.5.08

naipes - copas.

certa vez, pediu uma
receita para espantar
coração quebrado.

disseram-lhe que
não havia método,
remédio ou médico.

coração quebrado
só se conserta com
boas doses de cal,
durex e poesia.

não necessariamente
os três juntos,
talvez um, ou outro.
talvez nada.

talvez seja melhor
afogá-lo num mar
de amores perfeitos.

14.5.08

naipes - espadas.

As gotas amargas escorrem
e me encobrem de um
manto vermelho.

Sinto-me rei e herói,
e, aos poucos, vejo
a realidade se apagar
dos meus olhos.

Onde havia cavalhos,
cavaleiros e espadas,
surge a escuridão
e seus fantasmas:

o passado, o futuro, o eu, o você.
Chamo seu nome, mas estamos longe,
como as estrelas e a imensidão
que nos separa delas.

Seguro as lágrimas dentro
das pálpebras fechadas
e o grito, embaixo do nó da garganta:
não há tempo para despedidas.

Cruzo as mãos sobre o peito
e sinto meu coração frio
(cheio de mágoas e livre de culpas).

Respiro, prendo o ar -
minha cabeça gira
numa dança que não ensaiei.

Enfim, puxo o punhal
de dentro do peito.
Um último ato heróico
antes de me tornar
busto de mármore
nos jardins de Atenas.

13.5.08

naipes - ouros.

sentado à beira
da estrada,
comendo poeira
das rodas,
jorrava palavras.

dizia ser sonhos
e vendia-os aos
nobres que não
sabiam sonhar.

fez fortuna assim:
trocando utopias
por esmolas.

com o tempo,
passou a viver
no palácio real
e, toda noite,
contava ao rei
os segredos do mundo.

por longos anos
metralhou ilusões
até que, numa tarde
sem-graça, morreu.

morreu montado
em denários de
ouro, rodeado de
sonhos e triste.

triste como se
nunca tivesse
sonhado.

12.5.08

cobre e azul.

a chama cobre e azul
encobre todo o papel.
aos poucos, vejo surgir
fuligem e nada.

parte das cinzas vêm
em minha direção,
mas a maioria voa
mundo a fora.
(em busca de algum
quintal limpo para sujar).

minhas mãos, trêmulas,
querem apagar a fogueira,
na esperança de encontrarem
cartas queimadas pela metade.

mal sabem que não é preciso,
pois o fogo queima tudo:
o papel, a lenha;
o álcool, a grama.
mas o fogo,

o fogo não mata as palavras.

11.5.08

amor de mãe.

Abriu primeiro o olho esquerdo, depois o direito. Olhou de um lado para o outro: seu pai ainda dormia. Escutou um barulho de xícara na cozinha e rapidamente saltou da cama de casal. O coração batia forte, foi até seu quarto e buscou, de uma gaveta, um cartão - as letras infantis mostravam que ele o havia feito. O pequeno coração batia acelerado ritmado pelo medo e pela ansiedade.
Revisou o discurso em pensamento, abriu um largo sorriso e desceu correndo a escada. Parou no último degrau. Avistou-a dentro da cozinha. Chegara a hora.
- Mãe! - gritou entre uma passada e outra - Mãe! Mãe!
- Filho, você acordou tão cedo!
Sentou-se no colo da mãe e forçou olhos de gente grande.
- Sabe, é que você merece! Você merece bem mais do que isso! Você merece todo o universo de presente! Feliz Dia das Mães!
- Brigada filho!
- Eu fiz pra você! - Eduardo disse ao entregar o cartão.
- Que lindo. Não precisava!
No fundo não precisava mesmo. Claro que presentes agradam e demonstram carinho, mas de nada adiantam se não vierem acompanhados de amor. Talvez só o amor baste - mães querem sentir que seu amor é recíproco.
- Eu te amo, filho.
- Eu te amo, mãe, assim, do tamanho do universo.

Mãe,
Não importa o que aconteça, quero que saiba: amo você, assim, do tamanho do universo e nada pode mudar isso. Feliz Dia das Mães.
Com amor,
Stefano.