10.5.08

canto de despedida.

O silêncio de quem grita,
Não é mais profundo
Que a dor de quem fica.

No berro, nossa história:
essa que enfia uma estaca
de memórias no meu peito.

(memórias
de alguém que partiu para o nunca).

E eu corro contra o tempo,
tento esquecer o que
volta com o vento:
o teu abraço.

Rasgo as noites procurando
um sorriso perdido em mim,
ou a beleza que restou depois
que a tempestade foi embora.

Cansei das minhas lágrimas:
elas não valem nada,
pois não conseguem
te dizer que meu silêncio
é de tanto que gritei por ti.

in memorian de minha avó, Zuleika.

9.5.08

coringa.

tenho todas as
cartas na manga.
mas falta coragem
para usá-las.

não tenho certeza
se é falta de prática:
passo as noites
sonhando jogadas.

meu problema
é excesso de azar.

pois juntos
(somente juntos)
temos toda a sorte
do mundo.

e no momento
eu jogo sozinho.

8.5.08

rascunho.

ré-sol-lá-si.
ré-ré-sol-lá-si.
dó-sol-lá-sol.
dó-sol-lá-sol.
fá#-sol.

agora imagine o piano, a platéia e os aplausos.
fim do espetáculo.

7.5.08

não parta jamais.

Campinas, 07 de maio de 2008

Vinicius de Moraes,

Seguro, entre o peito e as mãos, a sua obra completa - os versos que ilustram os dias que parecem paredes em branco. Leio-os e tento entender o seu dialeto - essa dança de palavras que me movem ao outro lado da razão.
Sua voz, que poucos lembram de cor, é transformada, todos os dias, no grito aquietado de quem bebe um pouco de suas palavras - talvez, no sussurro de quem o lê em biblioteca. Enquanto eu sou somente a essência das idéias que brotam na mente e que morrem no vento frio, você é o eterno (no silêncio dos olhos cansados).
Às vezes medito a idéia de poder lhe dizer pessoalmente tudo que seus versos me proporcionaram, mas em outros momentos acho minha retória sem-graça: meus colossos perdem a cor quando você aparece - tudo fica sem cor para admirar a sua aura nata. O mundo se torna banal e frágil perto dessa outra realidade que criou em suas estrofes - viver é mais fácil dentro de seus sonetos.
Por isso e outros tantos motivos d'alma, peço que se faça presente - sei que a morte já não foi o bastante para lhe levar embora -, peço que resista aos ventavais e não parta jamais, pois não pode haver tempo que mate quem desvendou a vida.

Com saudade,
Stefano

6.5.08

ENADE que pariu.

É comum associarmos acadêmicos com pessoas cultas que dominam a língua culta e que sabem sair com postura de qualquer situação adversa. Na maioria dos casos, acertamos ao pensar assim, até nos depararmos com certos ilustre, como o professor Antonio Natalino Manta Dantas - esse que ostenta diploma em Medicina pela FAMEB (Faculdade de Medicina da Bahia). Levando em consideração seu curriculum não há nada para se envergonhar: possui diversas especializações cirúrgicas e alta cadeira na UFBA (Universidade Federal da Bahia), como coordenador livre-docente do curso de medicina.
Tudo caminhava em seu perfeito estado de paz até semana passada, quando saíram os perversos resultados do ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) para o curso de medicina e, fatídicamente, dentre os piores desempenhos estava o da UFBA. Os repórteres que não são bobos nem nada, se apressaram em questionar Dantas sobre o péssima nota tirada pelo curso e a resposta dada por ele assombrou o país:
"Há uma inferioridade dos alunos baianos em relação aos outros. A prova foi uma mostra disso. O baiano é uma pessoa igual a qualquer outra, mas talvez tenha déficit em relação a outras populações. Não temos aquele desenvolvimento que poderíamos ter. Se comparados com os estados do Sul, vemos que a imigração japonesa, italiana e alemã foram excelentes para o país. Aqui ficamos estagnados. O povo baiano tem baixa de QI que é uma doença hereditária". E para acabar de vez com o assunto soltou a brilhante piada: "O berimbau é o tipo de instrumento para o indivíduo que tem poucos neurônios. Ele tem uma corda só e não precisa de muitas combinações musicais".
Obviamente, a população baiana não aceitou quieta essa chuva de elogios e pouco depois o governador baiano, Jaques Wagner, declarou que o professor Antonio teve um surto de imbecilidade.
Todavia diante de tudo isso, chegamos a um beco sem saída: onde ficou a eduação? Pois o que vejo são duas declarações agressivas que não passam de explosões sentimentais, o que prova que ambos não sabem aceitar uma crítica sem cair do salto (e "cair do salto" aqui não é só ficar nervoso, mas é mostrar, também, não ser digno de ocupar o cargo no qual está). Claro que dirão que tiveram motivos para dizer tais coisas, mas não importa: não importa se é um comentário racista ou não, uma nota ruim ou não - o carater e a dignidade devem ser maiores que números e palavras.
Não vamos aqui colocar a carreira de Jaques na mesa - esse que teve grande influência nos movimentos estudantis e ajudou a fundar o PT. Apenas seria de bom tom que ele soubesse devender seus eleitores (que o puseram no governo com 53% de votos) sem precisar descer ao nível de quem os ofende.
Quanto Antonio Dantas, seria razoável que analizasse melhor seu comentário, afinal ao criticar seus comterrâneos, assumiu uma postura racista (que é crime) e, caso não tenha percebido, se chingou de burro (ou ele é o único isento do baixo QI hereditário?). Por sinal, atualizar seu vocabulário deixaria seu argumento menos ridículo: QI é um termo extinto na psicologia moderna.
Claro que não pode-se extender a característica de ser mal-educado a todos os baianos, todavia preocupa saber que um estado é representado por pessoas que não sabem manter um discurso sensato e politicamente correto quando postos contra a parede. Espero que esse caso abra os olhos dos baianos: ovelhas alvas também possuem suas manchas escuras.

5.5.08

partida.

olhos fechados:
procuro no escuro
o eu que fugi para o nunca.

4.5.08

plano perfeito - parte final.

[ler parte 1, parte 2, parte 3, parte 4, parte 5, parte 6, parte 7]

Chegamos ao fim e, a partir de agora, tudo começa a fazer sentido. Eduardo era só um analista de sistema que, com fins de diversão, criou um perfil falso no Orkut para conquistar algumas mulheres e depois desiludí-las, mas não esperava se apaixonar logo pela primeira escolhida. Depois de praticamente duas semanas que se conheciam, marcaram de se ver no shopping. Ela esperava encontrar Carlos Alberto de Silva e Silva, já ele torcia para que a reação dela, ao saber a verdade, não fosse ruim.
Quando se encontraram naquele sábado à noite, Eduardo precisou usar seus melhores argumentos para convencer Vera de que seu amor era verdadeiro e puro (independente de qualquer "porém" que houvesse na história). Por fim, ela o abraçou - ele estava perdoado. Seus corações estavam quentes e pulsantes, praticamente vulcões prontos para explodir. Os braços foram se soltando vagarosamente e os rostos, que antes estavam lado a lado, se juntaram em um único beijo - o primeiro, o mais desejado e o último.
Para infelicidade dos dois, ele sugeriu que jantassem num restaurante que ficava na parte de fora do shopping. Azar mesmo foi quando ela aceitou o convite. Getúlio e Vargas, que observavam o casal de longe, os seguiram até saírem do shopping. Se aproximaram e, discretamente, encostaram a boca de suas armas nas costas das vítimas.
- Não façam nenhum sinal, não demonstrem desespero. Venham conosco, agora.
Eduardo e Vera pararam por um segundo, pensaram em fugir, mas não daria tempo. Seguiram as ordem e foram caminhando de mãos dadas até o carro dos matadores.
Um foi guiando o carro, o outro sentou-se no meio dos seqüestrados. Pararam no meio da estrada. Obrigaram as vítimas a tomar um líquido que cheirava a veneno de rato.
- Para vocês dormirem melhor.
Ele foi jogado barranco abaixo. Não tiveram coragem de fazer o mesmo com Vera, porém metros adiante a deixaram meio de um matagal.
Chovia forte.
Pronto, o amor acaba por aqui. Não o amor dos filmes que é terrivelmente perfeito e chato ao mesmo tempo, mas esse da vida real que é estranhamente belo.

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Shopping, 23/02/08
Sábado, 22:00

Mariana foi embora sozinha mais uma vez: Henrique era só mais um desses caras que mentem na idade, na altura, na beleza. Definitivamente ela não tinha sorte no amor.

fim.